Ainda sinto o gosto dela. É estranho!
Ela sempre foi minha amiga, a pessoa que me conhecia mais do que um membro da minha família. E eu achando que sabia de cada contorno da sua alma...
Noite calma, brisa agradável, sugerindo um cobertor na hora de dormir.
A luz baixa da sala realçava as afinidades das nossas sombras enquanto a gente conversava amenidades. Eu estava encostado na bancada da cozinha e ela parada à minha frente falava, falava e falava.
Como não percebi o brilho nos seus olhos? Havia algo de diferente neles. Atribuí ao clima, a qualquer tipo de coisa que me viesse na cabeça. Nunca imaginei aquela energia.
Ela parou de falar no meio de uma frase e, antes que eu pudesse perguntar se estava tudo bem, vi que a ínfima distância entre nós havia desaparecido. Suas mãos agarraram a gola da minha camisa e me puxaram com uma autoridade que me deixou assustado. O beijo não soou como uma tentativa. Pareceu uma reivindicação.
Minha mente bugou! Nunca achei que passaríamos da camada de bons amigos. Senti forte as batidas do meu coração.
O choque inicial deu lugar ao instinto natural. Minhas mãos se firmaram em sua cintura e eu correspondi ao que classifico como o beijo da descoberta: quando o sentimento está aprisionado por anos e, na primeira oportunidade, ele se liberta.
Quando ela se afastou, vi a realização plena em seu olhar baixo, envergonhado. O peso do que tinha acabado de ocorrer a deixou desconcertada.
Vi o rubor tomando conta da sua carinha, o constrangimento ocupando o lugar da coragem que a tinha dominado segundos antes.
Seu olhar se voltou para mim. O silêncio permaneceu. Contente, achei que seria bom sorrir. Esbocei um ar de satisfação. Fui discreto, eu acho.
Ela ficou me olhando como se visse um fantasma. Então saiu às pressas. Não pude dizer sequer uma palavra.
Agora estou parado no meio da sala. A brisa exaurindo o calor que tinha tomado conta do meu corpo, o fluxo de energia subitamente gostoso.
Ela foi embora. A minha melhor amiga junto com a namorada que eu gostaria.
Eu não sabia de nada, eu não consegui fazer nada, mas...
Droga! Como eu queria que ela tivesse ficado.
