quinta-feira, 30 de julho de 2026

TABACARIA - ÁLVARO DE CAMPOS

Pesquisando umas coisas no Google, tive a oportunidade de conhecer a fundo esta poesia bem conhecida do Álvaro de Campos, que é um dos pseudônimos de Fernando Pessôa. 

Confesso que não a conhecia. A visão que eu tinha, de poesia, são aqueles versinhos que rimam. 

Sei que a poesia é uma expressão do intimismo de cada um. Ela nem precisa ter rima, mas cresci aborvendo tais características, por isso me impressionou a expressividade longa, diferente e profunda (na minha opinião) do texto que compartilho agora, escrito há mais de 98 anos.

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
 
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
 
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
 
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
 
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
 
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
 
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
 
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
 
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
 
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
 
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
 
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
 
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
 
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
 
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
 
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
 
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15/01/1928

Para quem gosta da versão em áudio, eis a do Carlos Eduardo Valente, dono de um canal com vasto catálogo de audiobooks. Tem muito conteúdo bom.

Um abraço, até a próxima postagem.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

24 HORAS PARA MORRER


Esse filme me surpreendeu positivamente. O titulo original é Oxygen e o motivo é óbvio: a trama toda gira em torno da esposa burguesa de um figurão endinheirado que é capturada e enterrada viva. Se o maridão pagar um milhão de dólares ao sequestrador, ela é libertada. Então existe uma luta contra o tempo para resgatá-la com vida.
Fiquei simplesmente vidrado na presença do psicopata sequestrador. Para mim, soou como um desconhecido, pois não me lembro dele em filmes conhecidos, porém, pesquisando no Google, percebo que ele fez obras que assisti há certo tempo.
Adrien Brody, segundo o Google, é reconhecido historicamente como o homem mais jovem a ter ganhado o Oscar de melhor ator, prêmio que ele conquistou aos 29 anos de idade. E na sua filmografia se destacam:
- O Pianista (2002), que lhe rendeu o Oscar
- O Brutalista (2024), que lhe rendeu outro Oscar
- King Kong (2005), fez par romântico com a Naomi Watts, filme dirigido por Peter Jackson que, apesar de ser um remake pouco valorizado no Brasil, fez a alegria do cinema lá fora, considerado como uma das maiores bilheterias de sucesso à época.
- Peaky Blinders (4a. tempoerada), como Lucas Changretta, o grande rival mafioso de Thomas Shelby. A série tem longos episódios em todas as muitas temporadas. Lembro que depois da terceira, perdi o interesse.
Voltando a este filme de 1999, ele tem uma hora e meia de duração e, tal como a época, possui a imagem no padrão das TVs de antigamente que não eram tão retangulares, então a imagem que assisti foi quase que quadrada. Não é um problema, mas acho bom avisar a quem possa se interessar. O som da dublagem e a imagem também não são os super mega blaster definidos de hoje em dia, mas são bons. Eu vi tranquilamente, sem problema algum. Fiquei até bastante confortável em relação ao som, que não tem aquele problema de ter que aumentar e abaixar o volume uma porção de vezes, como infelizmente ocorre nas produções novas, pois parece que virou um padrão colocarem sons autíssimos na sonoplastia e muito baixo nas vozes, nos diálogos. Esse filme não tem isso. As tomadas de cena, os figurinos e os penteados também estão superdatados. Você verá carangas que eram consideradas carrões naquela época. É sempre bom avisar.
Vi no YouTube.

SPOILERS - PARE AQUI, SE NÃO QUER SABER MAIS

O grande barato desse filme é justamente a falta de um mistério maior. Desde o começo, a gente vê o que acontece, a mulher sendo enterrada viva e o cara falando que, se o maridão pagar o resgate em tempo, ela poderá ser libertada. Então, a gente não apenas sabe, mas participa desse enterro vivo dela. E isso vai gerando uma revolta à medida que o tempo passa e ele simplesmente tira onda com a cara de todo mundo da polícia.
É feito todo um plano para pegá-lo no momento em que o marido paga o resgate, mas o que parecia ser a estratégia perfeita é totalmente previsível a ele que é muito perspicaz e previu os agentes à paisana. Então ele passa a mão no dinheiro e não abre o bico, não quer nem saber de contar onde está enterrada a mulher.
Há uma perseguição. 
Com muito esforço, ele é pego. 
É aí que a coisa só melhora.
O filme faz de propósito. Sério. Você começa a ter uma raiva descomunal por ele, pois o tempo urge e as coisas não evoluem porque ele simplesmente brinca com todo mundo. 
Uma investigadora é o principal alvo dele que descobre o lado sadomasoquista dela. A mulher tem um "amigo" oculto que a tortura. Ela gosta. Ele expõe isso e acaba com o casamento dela. Ele faz mil exigências, ela cede em tudo o que ele pede e, mesmo assim, ela ainda se ferra nas mãos dele.
Há um momento em que ele finalmente dá uma localização. Uma equipe é mandada para o local e começa a escavar. A gente fica ali, acompanhando, pensando, "anda logo, que povo bunda mole". Quando finalmente encontram o caixão, ao abri-lo, descobrem que quem está lá dentro é a cachorra da mulher. Estou falando de um pet de verdade, mas o psicopata ri e diz que a mulher era uma cadela mesmo.
Eu não vou contar o fim, só digo que a virada de chave é bem simples e acontece rápido. 
O filme é previsível, sim, parece baixo orçamento, mas é gostoso de ver. A gente se sente como se estivesse ao lado, acompanhando tudo. E a gente quer acompanhar, a gente fica numa afobação, a gente tem vontade de entrar naquela sala de interrogatório e enchê-lo de porradas. Essa é a graça da história. Os personagens parecem de verdade e esse cara é muito, mas muito ordinário. 
Não sei se para quem me leu até aqui, se o filme terá o mesmo impacto, pois eu vi no miguelão, praticamente sem saber de quase nada, então foi muito bom.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

FICOU NA LEMBRANÇA


Um dia, vi um homem que me chamou a atenção por ter uma barba cheia, escura, da cor dos seus cabelos um tanto bagunçados, precisando de corte. Os braços eram delineados e o corpo magro sugeria certa força por baixo daquela roupa suja após o dia todo de trabalho.

Esse homem chegava de bicicleta, abrindo o portão da casa ao lado. Antes de entrar totalmente, olhou na minha direção. Uma expressão de poucos amigos. Parecia zangado. O olhar era intenso. Nunca esqueci. Eu, um menino de poucos anos, sentado na calçada de casa, segurando um toco de gesso ao lado de uma boneca de pano, nada fiz.

Cerca de dez anos depois, eu ainda me lembrava daquele dia, do momento em que ele chegou, abriu o pequeno portão de sua casa e me olhou um segundo antes de entrar. Só que agora eu poderia ir até ele e puxar assunto. Talvez ficássemos amigos, embora eu quisesse mais. Eu queria era saber se, na sua intimidade, havia um certo órgão masculino. Conferiria seu formato, sua textura, seu cheiro. Se pudesse, gostaria de saboreá-lo. Que gosto teria um barbudo suado do trabalho como ele? Como era o gosto dele?

Sabia que esse encontro jamais aconteceria. Agora que eu tinha idade, eu queria. Por isso, o busquei em tantos outros homens. Nunca o encontrei.

Hoje, sinto o peso da idade. Não o da velhice, que ainda me trará outra perspectiva da vida. É o da maturidade, da vivência, de ter me tornado um catálogo de cores personalizadas de acordo com cada experiência.

Não me lembro muito do que se passou ao longo da minha existência. Das relações amorosas, eu carrego o que me é conveniente.

Quase cinquenta anos depois, com meus cabelos brancos, fingindo que não noto os vincos chegando aos poucos no meu pescoço, eu não consigo esquecer. A memória é cristalina: aquele homem barbudo chegando de bicicleta, entrando após um dia de trabalho e me olhando por um segundo. Cara de zangado. O que ele faria a mim, se pudesse, naquele momento? Não tenho coragem de confessar o que tenho imaginado. Só sei que teria gostado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

UMA POESIA NADA FOFA

Daniel é um blogueiro que me convida a esfriar o corpo no chuveiro. O único que me fez ir na 'fotinha' de avatar e maximizá-la, várias vezes, para ver melhor a paisagem. Como muitos escritores, ele gosta de poesia. Sua poesia mais recente (hoje) se chama O Santo Bateu. 

Quando eu a li, fiquei pensando sobre como a poesia costuma ser um retrato de algo que há em nós ou da forma como absorvemos as coisas. É nessas horas que vejo como minha alma é desprovida de certas qualidades, pois eu simplesmente não me vejo na situação descrita e sequer me convido a me colocar no lugar do autor, nem de brincadeira.

Estou envelhecendo e começando a entender certos preceitos psicológicos que antes eu repudiava. Entre eles, o entendimento de que não podemos nos colocar no lugar do outro, pois o lugar do outro é somente do outro. Agora compreendo a dimensão, pois a vida é uma cebola, ela é cheia de camadas.

Para terminar, coloco uma versão minha (nada agradável, mas real) da poesia dele. Recomendo que leia a dele primeiro

Às seis da manhã,
até os raios de sol
bocejavam atrás das árvores.
E eu, obrigado a ir tirar sangue,
lembro que  até os vampiros
o colhem à noite.

No mercedão que nunca terei,
aquele que é de todo mundo
e de ninguém ao mesmo tempo,
sentei ao lado de uma mulher
que resolveu conversar.

É doença pra lá
doença pra cá
doença que era dela
doença que era dos outros
doença que poderia ser minha
Joguei pedra na cruz, só podia.

Depois reclamou do SUS,
mas o Lula é um coitado
O pobrema é o crime
e o hômi-secsual
Mas Gzuis tá vendo tudo
Esse povo vai ver depois
E eu pensando: depois quando?
A dona tá viajando.

Fiquei me perguntando:
Quem sou eu
nessa imensidão,
apenas mais um
xexelento na fila do pão.

O ponto dela chegou.
Graças a Deus!

Antes de descer,
deixou um beijo no meu rosto
e sorriu:
— Nosso santo bateu.
Isso é energia boa.
Também sorri e só pensei:
-- Isso é só paciência, boba.

Olhei para o chão
Averiguei meu saco,
se já batia lá,
e o ônibus seguiu.

E eu descobri
que de manhã
o meu destino
me dá uma passagem
para o inferno,
só para lembrar
que uma desconhecida
pode me atormentar
por alguns quilômetros,
para começar bem o dia.

terça-feira, 14 de julho de 2026

CANIBAIS [THE GREEN INFERNO]


De Eli Roth, diretor de O Albergue, esse filme mostra gente jovem, fútil e endinheirada querendo dar um rumo à própria vida, mas um tanto perdida no rolê. As patricinhas começam a notar um aglomerado de ativistas protestando. Algo no estilo "salvem os indígenas", "salvem a floresta amazônica", "salvem o planeta". Daí surge o nome de uma organização que se diz independente para a imprensa noticiar, e a oposição mostra todo o poder da sua opressão; enfim, o espetáculo que o sistema adora.

Uma delas fica curiosa e é incentivada por um dos ativistas líderes do movimento. Ela não sabe, mas será usada por eles em uma missão sul-americana. Quando a "ficha cai", ela está correndo risco de morte, mas escapa por um triz, graças aos celulares transmitindo suas lives em meio aos berros de quem a identifica como aquela deusa do capitalismo que deve permanecer com os fios de cabelo intocáveis, ou um monte de gente vai parar na vala.

O plano de afugentar os garimpeiros daquele lugar (reserva ecológica?) dá certo, os ativistas posam de heróis e, ao voltarem para casa, o pequeno avião cai em uma mata fechada na Amazônia peruana. Mais precisamente, uma região de difícil acesso e habitada por indígenas canibais. Quem não morreu com a queda da aeronave é capturado por esse pessoal. Um a um, os prisioneiros acabam perdendo a vida durante as tentativas de fuga.

A gente vai vendo o horror dos acontecimentos. O ser humano vendo o próprio ser humano como cardápio apetitoso. Não tem essa de pensar na família de cada um e ficar com peninha. Caiu na rede, é peixe. Simples assim. Ali não tem moralismos, afetuosidade e, muito menos, direitos humanos. A tal da mocinha, filha de não sei quem, naquele local, era só mais um filé prestes a ser saboreado, mas...

AGORA COMEÇAM OS SPOILERS

Ironicamente, ela é a única que sobrevive. Em toda sociedade existem os corruptíveis. Naquele povoado não era diferente. Um curumim proporcionou a fuga da madame, justo quando ela já estava sendo preparada para o banquete. A propina foi um apito que podia ser utilizado como se fosse uma flauta. Mexendo os dedos, o som ficava diferente.

Mas a maracutaia logo foi descoberta, o que dificultou bastante o sossego da subornadora, a ponto de se ver com os canibais em seu encalço e, do outro lado, bloqueando sua rota, uma onça que poderia atacá-la. O que você faria? Bem, entre os canibais e a onça, ela escolheu encarar o felino que, por sinal, acabou não fazendo nada. Se bobear, o animal é que deve ter ficado com receio dela.

A perseguição não acaba ali. De tanto correr, ela chega em uma área de confronto onde um pessoal "gente boa" luta contra os indígenas. Não prestei atenção se aquele povo eram garimpeiros que queriam tomar as terras ou se foram enviados para resgatar os ativistas, ou os dois. O fato é que eles estavam lá, prestes a executá-la, então a bonita levanta o poderoso celular de todos os reinos e grita que é americana.

Ao ser acolhida, no momento de irem embora, alguém pergunta se havia mais ativistas vivos para o resgate. Havia, sim. Mas ela disse que não. O sobrevivente era um dos ativistas. Ele se masturbou enquanto os amigos sofriam. Ele não media esforços para que os companheiros morressem antes dele, alegando ser a lei da sobrevivência. Vemos a cena clichê do cidadão, ainda preso, se esgoelando para a aeronave ouvi-lo, mas o esforço sendo em vão, pois logo ela se distancia até sumir de vista.

O filme termina com um depoimento da bonita na grande mídia. Ela aproveitou a ocasião para denunciar a farsa desses movimentos que lutam por nobres causas, mas usam e manipulam todo mundo porque lucram com isso? Não.

Ela mentiu incrivelmente sobre tudo. Os garimpeiros ficaram como os únicos vilões da história, pois todos os parceiros morreram pela queda do avião e ela foi resgatada pelos indígenas que foram quase como seus súditos, tamanha bondade a deles em cuidar dela. Você sabe por que ela fez isso. Eu também.

Como diz um verso da música do Biquini Cavadão:

"Bem-vindo ao mundo adulto
Não creia em ingenuidades
Amigos sempre fomos, negócios sempre à parte
Você que descobriu tudo isso um pouco tarde"

sábado, 11 de julho de 2026

AMIGO, PERO NO MUCHO

Minhas redes sociais são basicamente para conhecidos, familiares ou não, que achariam estranho se eu não tivesse um perfil. Como eu ficaria sabendo do aniversário de um ou do passamento de outro? 

Pois é. Pela rede social, eu escolhi não ir a comemorações e escolhi comparecer a velórios.

Ninguém me enche a paciência em um velório. É super agradável. Eu fico até entusiasmado, empolgado. Já aconteceu de sentir vontade de rir. Alguma vezes, eu disfarcei. Em uma ou outra, acho que perceberam alguma coisa. 

Festas são chatas. A última vez em que fui, tive que ficar conversando com uma pessoa remanescente da era jurássica e que não estava nem um pouco a fim de se enturmar. Se alguém a procurasse, ótimo. Até rolava um bate-papo. Mas ninguém se aproximava. Então, por eeducação, terminei o rolê falando o clássico "vai lá em casa uma hora". 

Eu e minha boca.

Não passou nem uma semana, olha o cidadão aparecendo para uma visita totalmente surpresa na minha casa. 

Não atendi. 

Pedi perdão a Deus e me comprometi a nunca mais dizer essas coisas. A gente quer ser cordial e acaba desencadeando esse tipo de situação.
 
Quando alguém te fala "vai lá em casa", é só um meio bonito de dizer "estou indo embora". Não é para você visitar o ser.

Uma vez, há certo tempo, rolava uma conversa entre um povo conhecido, então alguém se convidou e eu logo falei: "Não recebo ninguém na minha casa. Sei lá. Eu não gosto". Soou grosseiro, estúpido, mas também libertador. Devem ter falado muito mal de mim pelas costas, mas não me arrancou pedaço.

Não sou tão recluso quanto gostaria. Algumas pessoas realmente vêm me ver às vezes, mas é gente bem próxima, de um convívio presencial natural. 

Nem sempre eu fui assim. 

Eu gostava de receber amigos, toda pessoa que viesse gastar um pouco de seu tempo comigo. Eu era do tipo que sempre tinha alguma coisinha para comer. Achava falta de educação não oferecer nada. 

O tempo passou e muita coisa aconteceu. As pessoas não vêm mais aonde você mora porque querem conversar. Para isso existe a Internet, o WhatsApp, as redes sociais. Elas vêm na sua casa porque estão ociosas, desocupadas e querem saber como você está vivendo, sob quais condições, em que lugar etc.
Nos dias de hoje, quem precisa realmente falar com você vai te mandar mensagens. Quem está ferrado vai dar um jeito de ir até você. Corre!

terça-feira, 7 de julho de 2026

BRINCANDO COM A DONA CHICA

Ela colocou essas imagens e pediu para criarmos qualquer coisa inspirada no que vemos.

Foi superfácil. Confesso que me inspirei em causas humanitárias. Vejam só o que escrevi.










Uma torre na inundação

Penso nas pessoas malas

Que eu poderia jogar nessas águas

Para alimentar um tubarão


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TABACARIA - ÁLVARO DE CAMPOS

Pesquisando umas coisas no Google, tive a oportunidade de conhecer a fundo esta poesia bem conhecida do Álvaro de Campos, que é um dos pseud...