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terça-feira, 7 de julho de 2026

BRINCANDO COM A DONA CHICA

Ela colocou essas imagens e pediu para criarmos qualquer coisa inspirada no que vemos.

Foi superfácil. Confesso que me inspirei em causas humanitárias. Vejam só o que escrevi.










Uma torre na inundação

Penso nas pessoas malas

Que eu poderia jogar nessas águas

Para alimentar um tubarão


Para ir ao blog do Dona Chica, clique aqui

segunda-feira, 23 de março de 2026

CONTO: O QUE É A VIDA

Lua cheia de romantismo. 
Léia e João ouviam rock em um bar.
Amigos vieram, bateram papo e se foram.
Os dois tinham algo importante a tratar.

João, homem lindo, gostoso.
Na cama, o fodão.
Um cavalheiro antes e depois do gozo. 

Os olhos dela brilhavam.
O sorriso bobo de quem se encantava até com a espuma desaparecendo em meio à cerveja. 

A música da Pitty soava mais bela:
-- Eu vou equalizar você...

Ela já sabia o que sairia dos lábios gostosos dele. 
Estava preparada.
Ele relutava. 
Era a tal da timidez.

Aproveitaram ao máximo aquele momento, então ela tomou a iniciativa.
Viu que ele não conseguiria.
João a olhava e a fala não saía.
Já tinham conversado muito sobre todos, sobre tudo, mas aquele assunto específico o mantinha calado.

-- Mas, hoje, estamos aqui por um motivo especial -- ela começou.
-- Eu sei. É que... eu não encontro as palavras certas.
-- Essa sua vergonha ainda vai te colocar em maus lençóis, meu bem. Só fala!

Ele riu de nervoso.
Parecia tão fácil. 
Ela ainda sorria e procurava transmitir confiança no olhar. 
Bebia a cerveja que já era pouca no copo.
João também bebeu. Goles e goles. 
Então se encheu de coragem e falou:
-- A gente vinha falando em casamento, Léia. 
-- "Você" falou em casamento. Por mim, morariamos junto. Toda vez que você vai, eu fico doida para você voltar. 
-- O casamento é o certo. Tudo documentado. É bom até para você, caso eu morra.
-- Você não vai morrer. Você vai é me matar... de amor.

Eles riram. 
Cúmplices do sentimento.

Ela tomou a iniciativa:
-- É sobre isso que você quer falar?
-- É, sim. 
Aquele era o momento. 
João sabia que não dava para enrolar mais.
De uma só vez, ele declarou:
-- Está tudo terminado entre nós.
Por um momento, ela riu. Achou que fosse brincadeira. 

Só ela riu.

João estava mais do que sério, estava triste. 
Seus olhos se avermelharam. Uma raiva começou a crescer para não dar vazão ao choro.
Gritou com Léia, afirmou que se casaria, sim, mas não com ela.

Tinha outra mulher. Sempre teve. 

Alice era o oposto dela: filha de fazendeiros, não precisava trabalhar e se dedicava à religião cristã. 
Usava roupas sóbrias, recatadas, abominava músicas profanas e tatuagens.

João gostava mesmo era de Léia, mas assumir de vez Alice era um bom negócio.  

A conversa terminou com ele saindo correndo. Se ficasse ali, desabaria em pranto, e homem como ele não chora. 

Léia foi ao casamento e fez questão de dar os parabéns aos noivos. 
Esqueceu tudo o que tinha vivido com João. 
Apenas desejou felicidades. 

Todo mundo reparou na roupa triste. 
O que chamou mais a atenção foram as tatuagens.
As pessoas murmuravam. 
Algumas se mostravam curiosas. Outras, incomodadas.

Como essa gótica se atreve a estar na Igreja?

Léia foi embora mais leve. Deixou o peso que vinha carregando nas costas. 
João, agora, viveria tudo o que uma mulher dissimulada era capaz de fazer. 
Não era o que Léia desejava. 
Mas ela sentia.

Queria estar enganada.
Que coisa é a vida.


* * *

Este conto é como perfume francês: pequeno e intenso.

Inspirado em um vídeo que vi com muito gosto no Blog do Neófito. O significado das tatuagens, o preconceito e a discriminação acerca delas. 

Focando na condição da mulher, como se uma tatuada se resumisse a algo ruim.

A outra que se passa por pura, religiosa, toda meiga e carinhosa pode ser tão indesejável e até perigosa como atribuem à tatuada.

-- Pelo menos, a tatuada já mostra logo quem é. -- Algo assim nos dizeres sábios e filosóficos desse meu amigo.

Segue o vídeo:

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

ACOLHIMENTO NA CAFETERIA

Faço minhas considerações após o conto em primeira pessoa (é uma mulher)

Senti algo ruim me abordar, uma espécie de energia invisível que se fez presente e pareceu até me abraçar. Um calafrio me veio, subitamente. Gomez até percebeu o bico dos meus seios duros, mesmo trajando uma blusa grossa por cima de uma camiseta. Não era um dia frio de inverno, mas eu quis usar a blusa porque não sentia tanto calor, no momento, e julgava que a temperatura fosse cair ao longo da tarde. Eu já estava com um arrepio na alma.
Por vezes, quis convencer a mim mesma de que tinham sido apenas pé de milho e cara de galã naquele carro, que era coisa da minha cabeça a neurose permanente que me fazia, agora, ficar atenta a todos ao meu redor.
― Sério? ― eu disse, tentando simular um certo controle emocional que Gomez estava notando que não mais havia.
― São hipóteses, mas é bem provável que o seu sequestro não tenha começado no instante em que entrou naquele carro. Você foi sondada antes. Um pegou seu celular e o outro fingiu que ia detê-lo, mas acabou deixando-o escapar. É claro, a real intenção dele não era pegar o ladrãozinho, era distrair a sua mente deixando-a nervosa, abalada, mexida, incapaz de raciocinar direito porque ele lhe tomava toda a atenção naquele momento. Não foi assim?
― Foi.
Como eu não tinha conseguido pensar em algo tão óbvio? Eu achava que conhecia os meandros da coisa toda, só porque passei uma noite inteira com aqueles dois, mas a real é que eu não sabia era de nada.
Eu me lembrei, de repente, do meu cativeiro: aquele sobrado enorme e horroroso, daquela cabecinha que vi transitar pelo corredor que fazia divisa com a parede do cativeiro. Era a cabeça de um homem. Do pouco que pude ver, naquele momento, foi fácil notar que era um homem que estava passando ali. Engraçado que o muro, do meu lado, era tão grande que precisei utilizar aquelas caixas de madeiras podres e o balde, para tentar atingir a altura necessária para escalá-lo e fugir. E não consegui. Mas o nível do piso era diferente no outro lado, pois, se fosse o mesmo, jamais teria visto a cabeça daquele sujeito, por mais alto que ele fosse. Lembro que gritei, gritei várias vezes para atrair da atenção dele, chamei por ele tantas vezes, mas o filho da puta nem ligou. Passou pela minha cabeça que ele tivesse problema de audição. Agora penso que ele pode, muito bem, ser mais um integrante do bando. Que homem ignoraria uma mulher esgoelando, bem ao lado, implorando por ajuda? Não um bom homem!
Olhei para Gomez, disfarçando ao máximo o pesar que suas informações me causaram, só que ele, macaco velho que era, sabia o quão mexida fiquei. Aqueles olhos me contemplavam em um misto de atenção, observação e uma empatia além de imaginar como me sentia, além de se colocar no meu lugar. Era um grau maior, de quem gostaria de ter liberdade para me abraçar, me amparar, me proteger.
― O Dr. Lima deve chegar em quinze minutos, eu acho. Enquanto isso, o que acha de tomarmos uma xícara de café aqui perto?
― Melhor não. Ele pode aparecer e não encontrar a gente.
― Daí, ele entrará em contato comigo, pelo meu celular, e a gente volta. Não tem problema.
― Vocês combinaram isso, né? Você e ele?
― É. 
Havia algo impreciso naquela afirmação, mas, sabe de uma coisa? Eu não tinha que ficar analisando o que me era desconhecido. Eu estava diante de uma autoridade policial, deveria me sentir segura, se ele afirma não haver problema algum em tomar um cafezinho, é porque realmente não há. Não me cabe analisar sua credibilidade.
Fomos parar em um estabelecimento conhecidíssimo, a três quadras dali.
As pessoas o olhavam com certa intimidade que se mostrava até no modo informal de se tratarem.
― O de sempre ― ele sorriu para a atendente que me deu um olhar estranho, como se não tivesse gostado de me ver. 
Era uma moça com idade compatível à minha, eu nunca a tinha visto mais gorda por aí, mas minha presença a incomodou, tanto que precisei fazer meu pedido à outra atendente, que quis me empurrar um copo descartável cheio de arroz-doce, alegando que era o mais vendido, o carro-chefe da casa, mas recusei e preferi apenas um pingado com pães de queijo. Havia uma promoção em que era mais vantagem adquirir três pãezinhos de queijo, em vez de dois, então aderi. 
Fiquei curiosa para saber do que se tratava o tal “o de sempre” que Gomez  tinha pedido. Quando a mulher trouxe um pratinho com pastel de queijo e, em seguida, um copo americano com um cafezinho preto vagabundo, ele olhou bem na minha cara e soltou, em meio a um sorriso de quem percebeu minha curiosidade e, agora, minha decepção:
― O que você esperava?
― Ah, sei lá. Algo não tão simplório assim.
Ele deu uma risadinha e saboreou o café fumegante.
A outra moça surgiu com meu pedido, acomodando-o à minha frente.
― O seu não é nenhum ícone de sofisticação, madame. Quem é a senhora mesmo, a Rainha Elizabeth?
Eu não soube o que responder, mas aquele jeito debochado dele me arrancou um sorrisinho de canto de boca. 
Preferi saborear logo o pingado. Então ele falou:
― Sabe desde quando eu venho aqui e tomo este cafezinho que fez você torcer esse seu nariz arrebitado aí? Desde que me conheço por gente, eu era um pequeno guri.
O senhor que estava cuidando do caixa, próximo aonde estávamos, interveio em alto e bom tom:
― Não é bem assim, a loja não existia na época da Santa Ceia!
― É claro que não! Nessa época, o meu avô tava carcando na sua avó!
O homem caiu na garalhada e voltou sua atenção ao cliente que apareceu para pagar sua conta.
Gomez olhou para mim e falou:
― Não liga, não. A gente se conhece desde criança. É assim mesmo.
O homem do caixa se meteu de novo:
― Já bati muito nesse carcamano! É por isso que ele parece meio doido!
― Já bateu “pra” mim, né? Você quer dizer. Olha que eu conto nosso segredinho… 
― Que você me mostrava que estava usando a calcinha da sua mãe e me pedia para tocar em você? Quer mesmo que ela saiba disso?
― Só se você me deixar contar que eu metia no seu rabo logo depois. Você até virava o “zoínho”!
Eles ficaram naquela zoeira, como se fossem dois meninos na puberdade, enquanto eu degustava do que havia pedido. Pela primeira vez, desde muitos dias, o alimento me descia bem. Eu me alimentava com calma. Os pãezinhos de queijo estavam ótimos. O pingado tinha um quê especial. 
Gostaria que o tempo não passasse tão rápido, mas logo me vi caminhando de volta àquele ponto de ônibus e Gomez não mais fazia gracinhas, sua irreverência foi deixada naquele Café.
______

Este é a segunda vez que posto um trecho do longa que estou escrevendo. O anterior, você confere clicando aqui
Eu avancei bastante na história. Sandra, a protagonista, fará uma espécie de reconstituição de seu sequestro, mas o delegado não chegou ainda. Na verdade, o investigador Gomez, um senhor bem experiente no ramo, foi na frente, visando preparar o emocional dela.
Preciso confessar que tive que pesquisar sobre os procedimentos desse negócio de reconstituição. O conhecimento que adquiri foi bem diferente em relação ao que pensei, mas estou inserindo na história. A gente é acostumado a ver coisas diferentes do nosso sistema brasileiro. Filmes e séries, livros internacionais. Então a gente acha que pode fazer igual. Não. Não pode. Perde-se a credibilidade. Por isso é importante pesquisar e procurar saber como funciona tal coisa. Também preciso dizer que a cafeteria existe, ela é histórica no centro de Ribeirão Preto.
Bom, se você leu até aqui, muito obrigado pelo seu tempo e seu carinho.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

O PESCADÔ E A SEREIA

Vi um post no blog do Jotabê falando em prosa de pescadô e me motivei a colocar uma aqui.

Um pescadô, uma vez, disse que jogou a vara e pescou uma sereia que era tão bela e formosa que não conseguiu fugir, queria mais era receber uns carinhos dela. 

A  mulher se aproximou, mostrou a minhoquinha que costumava servir de isca e meteu a minhoquinha na boca dele, fazendo com que ele saboreasse na marra aquela minhoquinha. 

Em seguida, ela falou para ele ir para casa e nunca mais voltar ali para pescar nada. Se voltasse a vê-lo, daria um jeito de enfiar uma minhoca maior em sua boca. 

Ela deu um mergulho e sumiu. 

O pescador nunca mais esqueceu aquele mulherão. Ele voltou várias vezes no local, na esperança de ver aquela beleza toda outra vez. 

Diz a todo mundo que nunca mais a viu, mas de vez em quando ele volta lá, motivado pelos encantos da sereia.

domingo, 28 de setembro de 2025

O INDÍCIO OCULTO DE UM CRIME

Dona Chica fez uma intreração interessante em sua postagem onde pediu para que criássemos algo utilizando as palavras aquilo - detetive - zom. Pode ser uma frase, um miniconto, uma poesia, qualquer texto compreensível.

Quando ela faz essas brincadeiras, a própria postagem já traz a criação dela como exemplo, e eu dei uma risadinha no final do miniconto dela. Adorei. Convido você a ler o que ela escreveu lá, direto no blog dela.

Segue abaixo, o conto que coloquei nos comentários dela e compartilho aqui, para guardar no meu blog. Quem sabe eu o use por aí, em outras publicações na vida.

O INDÍCIO OCULTO DE UM CRIME

Aquilo vinha e voltava na mente do detetive. Aquele corpo nu, visivelmente atirado ao chão frio e duro do cômodo sombrio no interior mais funesto daquele prostíbulo.

Ele tirou fotos e mais fotos. Fez vídeos também.

Agora tinha que tentar dormir, mas dormir de que jeito, se já eram quase cinco da manhã, a adrenalina ainda não baixara e seu celular estava ali, na palma da mão, com todas aquelas imagens que ainda visualizava.

Na tela, o dedo deslizava. Uma a uma, as fotos eram analisadas.

Eis que, em um repente, ele se viu obrigado a dar um zoom.

Olhou, viu que existia um pequeno detalhe que representava a diferença sobre a causa da morte daquela pessoa. Pensava-se, até então, em overdose na veia, pelos indícios do material encontrado ao lado. Chegava ser óbvio.

Agora ele passou a cogitar asfixia.

Um sinal pequeno, leve, como uma ínfima marca de dedo no pescoço. Um local praticamente escondido por causa da posição tosca em que se encontrava a vítima. Só uma das inúmeras fotos conseguiu captá-lo. Um hematoma na região da traqueia. Combinava com a boca entreaberta, a maneira como ela estava. Ela não podia declarar seus verbetes sobre o que lhe fizeram, mas, a seu modo, ajudou os indícios do corpo a alertarem que aquele cenário de vício descontrolado fora forjado.

Será?

domingo, 7 de setembro de 2025

UM CONTO SOBRE TRAIÇÃO

Obs: Narrado em primeira pessoa do sexo feminino

Acordei quando boa parte da manhã já tinha ido. Com certa lerdeza no andar e a visão um tanto turva, eu olhava à minha volta e não conseguia encontrar os pães. Estava certa de que havia uma embalagem fechada de pães de forma. Eu os mantive guardados, justamente para não ter o trabalho de ir à padaria quando não me sentisse disposta, mas agora não os encontrava, então me restou escovar os dentes, tacar uma água na cara, colocar uma roupa e ir comprar os benditos pães de todo dia. Só que eu não comprava pães de forma na padaria. Não. Lá, eles custavam mais caro. Compensava aproveitar as ofertas do supermercado. Na padaria, eu dava preferência ao filãozinho, ou seja: o tal do pão francês.

Antes, inventei de fazer café. Enquanto ele passava pelo coador, meu intestino deu sinais. Poxa, não podia esperar um pouco, até que eu voltasse da padaria? O jeito foi obedecer. Fiquei mais tempo do que pensei. Uma parte gordurosa indicou que tinham ido embora os lanches gordurosos consumidos ontem, na minha mãe. Sentindo-me cinquenta quilos mais leve, tive a sensação de flutuar a cada passo. Sério! Não tem sensação melhor que esta! Nem a do orgasmo!

O café estava pronto. Fechei a garrafa térmica, lavei as peças do coador e procurei a caneca que eu sempre utilizava para bebericar um pouco dele. Não a encontrei. Raios! O que estava acontecendo? O jeito era ir logo até a padaria. Como se, ao voltar, uma mágica aconteceria: eu encontraria minha caneca e, quem sabe, até os pães de forma.

Quando saí portão afora, vi o carro do irmão de Júnior estacionado em frente a casa dele. João Gilberto estava sozinho. Achei um verdadeiro milagre “aquela uma” não ter vindo. Se bem que não era nada comum a presença do próprio Gil em pleno dia de semana, quase na hora do almoço. Aquilo foi o suficiente para que eu acionasse, automaticamente, uma luzinha amarela dentro de mim. Aquela que, a exemplo dos semáforos, indica atenção. No caso, parecia que algo estava prestes a acontecer. 

Fingi esquecer alguma coisa, então voltei para dentro de minha casa, mas fiquei andando feito barata tonta pela garagem, fazendo de conta que estava procurando algo. Se alguém me perguntasse, eu diria que minha moeda tinha caído em algum lugar. A verdade é que eu resolvi enrolar, a fim de ver o que se desenrolaria à minha frente, já que era possível ver tudo o que se passava pelas grades do meu portão.

A casa de Júnior tinha campainha. Gil a tocou e, em seguida, escutei-o dizendo ao celular:

— Abre essa porra, senão vai ser pior pra você!

A voz dele não era alta. A pronúncia me soou quase inaudível. Era um tom macio, suave e grave ao mesmo tempo. Não era um vozeirão inflamado. Era uma voz masculina, só que suave. Ainda que ele estivesse puto, era próprio de sua voz o som de uma certa calma.

O portão de Júnior é um pouco melhor em relação ao meu, só que ambos não possuímos trava automática. Para destrancá-lo, é preciso que Júnior apareça com as chaves. Continuei me fingindo de morta, na expectativa de vê-lo surgindo. E foi o que aconteceu.

Eu me lembrei de ontem, quando saí sem ser notada enquanto Júnior dormia, de quando tranquei tudo e atirei as chaves ao chão, vendo-as deslizar pelo piso frio e liso, até pararem no rumo da porta da sala. Era para Júnior, agora, se agachar para apanhá-las, só que não. O modo direto do caminhar dele rumo ao portão me fez entender que o bonito já tinha acordado há certo tempo e apanhado as chaves. Ok, eu era a dorminhoca da ocasião. Queria pensar que ele também tivesse dormido bastante, como eu, e só neste exato momento estivesse indo até o portão. Então eu o veria abrindo a porta da sala e estranhando o fato de flagrar as chaves bem ali, um passo adiante, no chão da garagem. Ele se agacharia para pegá-las e se lembraria de mim com carinho. Essa idealização só existiu na minha cabeça.

Júnior veio rápido até o portão, pedindo calma. Ouvi ele falando “calma”, umas três vezes, no mínimo. E cada vez que Gil o ouvia, mais eriçado ficava. 

Gil nem entrou direito e já foi para cima de Júnior. Quis esmurrá-lo, mas o irmão, esperto que é, afastou-se logo. Gil gritava, xingava nomes horrorosos, nem parecia aquele homem controlado que eu tanto via. Não me lembro desse descontrole nem no dia do atropelamento de sua própria filha: aquele momento estúpido que eu gostaria de não me lembrar.

Júnior correu para dentro. Gil o seguiu, ainda gritando. O portão ficou aberto.

Não havia mais motivo para permanecer em minha garagem. Fui até o portão dele e fiquei na indecisão sobre adentrar. Percebi os dois lá dentro, na sala, um querendo falar mais alto que o outro, mas nada se aproveitava, eram ofensas de baixo calão. Alguns barulhos indicavam ações bruscas de alguém. Nesse momento, uma voz feminina surgiu, histérica, no desespero de apaziguar os ânimos. Ouvi dois novos barulhos. Pareciam murros. Ou eram empurrões? Alguém havia caído. A mulher gritava. Seu desespero era visível. 

Fiquei preocupada no momento em que ela falou:

— Para! Larga ele! Larga! Larga! Larga! Você vai matar o seu irmão! Ele tá ficando roxo! Não tá vendo? Larga ele, pelo amor de Deus, homem!

Eu estava pronta para intervir, mas percebi a súbita movimentação de alguém prestes a sair da sala e vir para a garagem, então, não sei o que me deu, eu me escondi em uma telha de amianto grande, colocada na vertical, que se apoiava em uma das paredes na área da garagem. Ninguém me via ali.

Gil apareceu sendo conduzido a duras penas pela própria esposa, que não parava de gritar para que fosse embora. Ela gritava, ele gritava os impropérios contra o irmão e Júnior revidava as ofensas, surgindo em seguida, apresentando certa dificuldade ao falar.

A tosca da mulherzinha, a muito custo, conseguiu tirar o marido de dentro da garagem.

— Pelo amor de Deus, homem! Vamos embora já!

— Sua puta! Vagabunda! Você vai ver quando chegarmos em casa! Ferro com a minha vida, mas você não vai ficar impune!

— Para! Para com isso, animal! O que você pensa que tá fazendo? Vamos embora logo, antes que alguém chame a polícia!

E Júnior, lá de dentro:

--Vai, corno! Obedece sua mulher, chifrudão! Tomou no cu gostoso, irmão! Cornão!

Uma nova descarga de adrenalina se apoderou de Gil, fazendo com que ele empurrasse a tonta da esposa e voltasse para a garagem. Júnior picou a mula para dentro, trancando a porta da sala e gritando lá de dentro:

— Corno! Corno viado! Corno manso! Chifrudo! Muuu! Ah, Ah, Ah!

Gil esmurrava a porta:

— Desgraçado! Vou acabar com sua raça!

— Muuu! Ah, Ah, Ah! Lero-Lero! Corno!

Gil começou a chutar a porta:

— Vou botar essa porra abaixo e vou acabar com a sua vida!

Lá fora, a mulher gritava e pedia para que fossem embora. 

Lá dentro, Júnior ria e debochava.

— Chupa essa fruta! Chupa essa fruta que pra você só tem o caroço! Eu já comi ela todinha! Ah, Ah, Ah!

Por incrível que pareça, a porta resistiu a todos os muros e pontapés de Gil, e não foram poucos. Por fim, o efeito da adrenalina foi passando e ele resolveu se juntar à esposa, lá fora, junto ao carro. Ela já não sabia mais o que dizer para convencê-lo a ir. Calou-se quando ele passou ao lado e vociferou um cala-boca, então entraram no carro e partiram.

Júnior abriu a porta e foi ligeiro em direção ao portão, viu o carro se distanciando e gritou mais impropérios. Sua voz estava rouca, praticamente afônica. Notei um hematoma ao redor do olho esquerdo e outro na parte inferior do nariz que, por sua vez, estava sangrando.

Ele ficou na calçada por um tempo, olhando o carro desaparecer ao longe. Ao entrar, trancou o portão e levou um susto quando me viu. Eu já tinha saído de trás da telha. Estava só observando quanto tempo ele levaria para me notar.

— Sandra!?

— Só me deixe sair, Júnior. Por favor.

— Er… Er… 

Ele queria me falar alguma coisa, mas percebi a dificuldade em concatenar as ideias. Eu não estava com ânimo para desenvolver nenhum tipo de papo cabeça àquela altura dos acontecimentos. Eu só queria sumir.

— Não… — ele disse, com muito sacrifício; até respirava com dificuldade, tamanha surpresa lhe causei.

— Só abra esse portão –- fui incisiva.

Ele o destrancou e o abriu. Dei uma última olhada naquele rosto machucado. Reparei também em uma vermelhidão no pescoço. Talvez tenha sido asfixiado por um mata-leão, o que tem a ver com os gritos da piranha, há pouco, dizendo que ele estava ficando roxo. Sim. Foi ele quem apanhou. E minha vontade era de bater nele também.

Só fui.

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Não comi os pães. Que pães? Os pães de forma que eu achei em um canto, no fundo da geladeira. Pois é! Era só ter aberto a geladeira.

Se eu tivesse aberto a geladeira, teria encontrado os pães de forma.

Se eu tivesse aberto a geladeira, não teria visto a menor necessidade de ir à padaria.

Se eu tivesse aberto a geladeira, não teria ido, àquela hora, até o portão de casa, não teria visto o carro do irmão de Júnior lá fora e não teria descoberto que Júnior me traiu com a cunhada.

Como a vida, às vezes, parece rir gostoso na cara da gente.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

CONSTRUÇÃO PARTICULAR

Noite quente, sei lá que horas, ventilador pequeno tentando refrescar o quarto que cheirava corpos ardentes que acabaram de se entregar ao orgasmo. 

Ele se esticou para apanhar o isqueiro e o maço de cigarros, mas continuou na cama e manteve o outro braço a ela abraçado. 

Ela, franzina, pele pálida, relaxava com a cabeça no peitoral suado, vermelho e gordo dele, cujo coração se ouvia bater em seus ouvidos. Uma das pequenas e delicadas mãos repousava na barriga peluda e saliente dele, como se ela fosse um imenso travesseiro.

Após contar sua condição soropositiva e também a condição de ansiedade e depressão, ela deixou claro que entenderia se eles não se vissem mais. Aquela era a terceira foda em um quinto encontro. Queria tê-lo para sempre, mas sabia que seria muito egoísmo. 

- A gente vai dando um jeito - ele falou, acendendo o cigarro à boca.

- E se a minha doença piorar?

- A gente vai dando um jeito - ele repetiu, regozijando-se no alcatrão e na nicotina do fumo.

- E se a sua vida se complicar?

- Ah, ela certamente irá. 

- Então! Como é que vai ser isso?

- A gente vai dando um jeito.

Eles se olharam, ele riu e tirou o cigarro da boca:

- Mulher, não existe vida perfeita em um relacionamento sério. Existe uma construção a dois. Você, com seus problemas, e eu com os meus. E enquanto a gente puder, a gente dá um foda-se para eles, fazendo o que que gente fez agora: fodendo. 

Ele voltou a fumar, contente em sentir a mão carinhosa dela lhe acariciando em silêncio. O que tinha acabado de dizer, não era sobre foda. Era sobre viver uma história junto, aconteça o que acontecer. Saber o que quer - e estar disposto a peitar o que vier - é o diferencial para o relacionamento sério.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O RETRATO DA REALIDADE

Ribeirão Preto, em suas primeiras horas matinais, já apresentava a luz do Sol intenso invadindo a cozinha de Leo, que se deleitava em seu módico café da manhã, rodeado pela realidade do momento. Aquela cidade era predominantemente quente e seca, bem diferente de onde morava. Ali não tinha praia, sequer um riozinho decente para recreação. O foco era o comércio. O atrativo turístico girava em torno do agronegócio, mas ele estava feliz. O sentimento de paz tomava conta. A dor não tinha desaparecido, estava sob controle por meio de uma aceitação tranquila.

Assim que terminou de comer o pãozinho com manteiga em meio à ultima golada do café com leite, ele pegou o celular e se levantou para uma selfie rápida. Aquelas singelas paredes, o notório calendário desatualizado e a geladeira formaram o cenário perfeito de um homem em reconstrução. Ali estava o retrato da retomada da vida como ela é. 

Olhando para a câmera, Léo sorriu ao conferir os cabelos incrivelmente curtos e diferentes do modo praiano. O homem na praia se encontrava bem distante agora. Tinha sido ele, mas, ao mesmo tempo, não era mais. Ergueu o polegar em um gesto de autoafirmação, o indicativo de que estava em paz. 

A vida em Ribeirão Preto, com sua rotina e seu calor, servia como um lembrete constante de que a felicidade não se encontra em lugares poéticos ou em relacionamentos perfeitos, mas na resiliência e na capacidade de se levantar após a queda. Ele havia aprendido a valorizar os pequenos momentos: o cheiro do café pela manhã, a geladeira branca e ruidosa, o calendário representando os dias que passavam, a vida que seguia e as oportunidades que apareciam. O polegar para cima, como fizera na foto, era um gesto simples que se tornara frequente, carregando o peso de toda a sua jornada. Era um "estou bem", um "estou aqui", um "consegui" e, talvez, o mais importante, era um "eu me amo". O seu sorriso, embora discreto, ia além da foto: era de alma!

Sob essa nova perspectiva, Leo foi ressignificando sua existência. Não queria saber de nenhuma outra história de amor, a não ser focar no amor por si mesmo. Colocando-se em primeiro lugar, redescobriu velhos hobbies, fez amizades e até se matriculou em um curso de fotografia. 

Capturar momentos se tornou sua nova paixão, uma forma de eternizar a beleza efêmera da vida, aquela que ele quase deixara de notar. As fotos refletiam seu estado de espírito: cores vibrantes, cenas do cotidiano, detalhes que antes passavam despercebidos. 

Ribeirão Preto, com sua luz intensa e seus cantos interessantes, se tornou um cenário rico e inspirador. Não havia prazer maior que trabalhar aquelas imagens, analisar, absorver a leitura de cada uma. Aquele relacionamento ruim foi engavetado no armário dos acontecimentos passados, vez que era lá, e tão somente lá, o seu lugar mais adequado, representando um triste, porém, importante capítulo, e não a história toda, vez que agora vislumbrava uma vontade infinita de viver. 

Talvez, em algum lugar, em algum momento futuro, possa existir um novo tipo de conexão, construída sobre uma base mais sólida de autoconhecimento e aceitação. Mas, por agora, ele estava bem. Completamente bem, em sua própria pele, em sua própria cidade, com suas próprias histórias para contar e fotografar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

ESSENCIALMENTE, À BEIRA-MAR



O fim de uma tarde à beira da praia pode ser emocionante. Daqueles dias em que até o Sol, nosso Astro-Rei, se manifesta a nosso favor nos proporcionando na medida certa seu calor que não castiga a pele e ainda permite gozar da brisa fresca do mar. 

Era um entardecer poético para Clarice. Ela caminhou com Charles, uns bons metros, até chegarem àquele local: uma parte sem movimento, onde algumas pessoas passavam aqui, acolá, não tão próximas. 

Charles foi quem teve a iniciativa de parar naquele ponto, sem nenhum motivo aparente. As mãos estavam dadas e ele simplesmente olhou para a areia em seus pés e parou. Clarice sentiu a súbita imobilidade pela mão dele segurando a sua, então também parou.

As mãos se soltaram, embora Charles ainda segurasse as próprias sandálias enquanto observava alguma coisa na areia. Eram resquícios. 

Ele se agachou e, ignorando um pouco da brisa refrescante, após analisar o que estava perto de seus pés, olhou para cima, em direção ao rosto delicado de sua amada, e perguntou:

-- Você consegue ver esse amontoado de coisinhas aqui?

-- Parece um amontoado de conchinhas. Algumas são bem pequeninas.

-- Exato. E você sabe o que elas têm em comum conosco?

Clarice franziu o cenho, até se pôs a pensar, mas se rendeu ao que ele tinha a explicar:

-- Essas conchas são a prova cabal da existência de alguém.

-- Você falando assim, Charles, até pareceu se tratar de alguma pessoa.

-- Em relação a uma pessoa, cada uma dessas conchas seria como o esqueleto de um ser humano. Já pensou? A gente estaria se deparando com um cemitério. 

Ele riu. Aquela risada breve de um segundo, como quem achou graça no que acabou de expor. Clarice, porém, não achou a menor graça. Queria saber aonde ele iria chegar com tal história.

-- Você, Clarice -- Charles falou, após contemplar um pouco mais aqueles fragmentos aparentemente tão insignificantes e inofensivos. -- Você nasceu criança. Deve ter sido mimada e birrenta em toda a adolescência, para o desespero de sua mãe.

-- Ah, pronto! E você já deve ter saído entorpecido de dentro da sua, com uma vontade louca de beber, só que não o leite marterno, talvez um corotinho de pinga no bar mais próximo da maternidade.

Ele riu, voltou a olhar para as conchinhas, então falou:

-- Aí você foi crescendo, se desenvolvendo, seu corpo todo foi mudando, se fortalecendo, certo?

-- E daí?

-- E daí... -- ele se levantou e fixou seu olhar aos olhos dela, um tanto impacientes pelo término do que ela já considerava uma palestra. -- Você se transformou nessa mulher linda e gostosa que é. -- Os braços foram se envolvendo com cautela ao corpo dela. -- E vai ficar comigo a vida inteira. E quando você ir, minha cara, o que é que vai restar? O seu esqueleto. Ele é a testificação da sua existência.

-- Até virar pó -- ela disse, sentindo o hálito quente dele fazendo com que sua própria boca ficasse seca diante daquela face máscula agora tão perto e vislumbrando além de seus belos globos oculares.

Charles não se cansava de admirar aquela beleza venusiana, agora acarinhada pelas suas mãos. As duas, pois as sandálias ficaram no chão.

-- Essas conchas, sabe, elas um dia foram o habitat, a espinha dorsal, a base da vida de alguém. Eu me refiro a um tipo de molusco, é claro, mas é um ser vivo que talvez tenha tido alguma importância no universo em que viveu. Quem é que sabe dos segredos da vida no mar? Esses seres tiveram sua existência e agora se resumem a isto aqui: meras carcaças de cálcio que vão se desfazendo aos poucos, entregues à ação da natureza, decompondo-se, integrando-se a essa areia. 

Clarice permaneceu em silêncio. Os olhos dele penetraram o avesso dela ao dizer: 

-- E assim é a nossa vida, bebê. Só que eu acho o nosso universo, como seres humanos, tão mais interessante. Podemos fazer tantas coisas, desfrutar do mundo inteiro. 

Charles sorriu em meio ao súbito silêncio onde o barulho das águas era música para a alma. 

Clarice tomou a iniciativa de envolver seus braços aos ombros dele, com delicadeza, mostrando sua receptividade em relação a algo mais que ele desejava lhe dar. 

Os lábios se uniram. A brisa refrescante regulava o calor da atratividade corporal. Eles foram se tocando, se acariciando, se sentindo... de acordo como o momento fluía. 

Ele, apenas de bermuda. Ela, um vestido florido. 

Suas vestes não foram empecilho. 

Ela pegou a carne dele e a introduziu dentro da sua. 

Os corpos ficaram literalmente ligados e eles se entregaram àquela vontade mútua.



Levei cerca de três dias para fazer este conto. Eu mesmo, sem nenhum tipo de IA. A inteligência artificial está nas imagens (é claro!) que o Ideogram fez, de acordo com o que pedi (configurei). As imagens dele vieram primeiro, a inspiração do conto surgiu a seguir, depois vieram as imagens dela. Clarice e Charles: nomes que escolhi em homenagem ao mercado literário.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

A GUARDIÃ DO SILÊNCIO

Diziam que o velho cemitério à beira do rio era assombrado — não por fantasmas, mas por uma capivara de olhos vermelhos que vagava entre as lápides nas madrugadas enevoadas.

Ninguém sabia de onde viera, nem há quanto tempo estava ali. Ela surgia quando o sol morria, caminhando em silêncio sobre o tapete de folhas secas, sempre parando diante da mesma sepultura coberta de musgo e tempo. Era como se esperasse algo — ou alguém — que nunca mais voltaria.

Alguns moradores juravam ter ouvido seus lamentos, suaves como o roçar do vento, dolorosos como lembranças esquecidas. Outros diziam que ela era a reencarnação de uma alma solitária, uma guardiã de memórias perdidas. Seus olhos, rubros e úmidos, não pareciam ferozes, mas sim aflitos, como os de quem carrega um luto eterno.

Naquela noite, a lua cheia se escondia por trás de nuvens espessas. A capivara parou, como sempre, diante da lápide rachada. Sentou-se. E ficou ali, imóvel, encarando o vazio, como se o próprio tempo tivesse parado para lhe fazer companhia.

O vento soprou, arrastando folhas e sussurros.

E o cemitério, mais uma vez, mergulhou no silêncio — guardado por olhos vermelhos e um coração partido.

POIS É

Criação, roteiro e direção artística: Fabiano Caldeira Arte produzida com auxílio de inteligência artificial (OpenAI)