Daniel é um blogueiro que me convida a esfriar o corpo no chuveiro. O único que me fez ir na 'fotinha' de avatar e maximizá-la, várias vezes, para ver melhor a paisagem. Como muitos escritores, ele gosta de poesia. Sua poesia mais recente (hoje) se chama O Santo Bateu.
Quando eu a li, fiquei pensando sobre como a poesia costuma ser um retrato de algo que há em nós ou da forma como absorvemos as coisas. É nessas horas que vejo como minha alma é desprovida de certas qualidades, pois eu simplesmente não me vejo na situação descrita e sequer me convido a me colocar no lugar do autor, nem de brincadeira.
Estou envelhecendo e começando a entender certos preceitos psicológicos que antes eu repudiava. Entre eles, o entendimento de que não podemos nos colocar no lugar do outro, pois o lugar do outro é somente do outro. Agora compreendo a dimensão, pois a vida é uma cebola, ela é cheia de camadas.
Para terminar, coloco uma versão minha (nada agradável, mas real) da poesia dele. Recomendo que leia a dele primeiro
até os raios de sol
bocejavam atrás das árvores.
E eu, obrigado a ir tirar sangue,
lembro que até os vampiros
o colhem à noite.
No mercedão que nunca terei,
aquele que é de todo mundo
e de ninguém ao mesmo tempo,
sentei ao lado de uma mulher
que resolveu conversar.
É doença pra lá
doença pra cá
doença que era dela
doença que era dos outros
doença que poderia ser minha
Joguei pedra na cruz, só podia.
Depois reclamou do SUS,
mas o Lula é um coitado
O pobrema é o crime
e o hômi-secsual
Mas Gzuis tá vendo tudo
Esse povo vai ver depois
E eu pensando: depois quando?
A dona tá viajando.
Fiquei me perguntando:
Quem sou eu
nessa imensidão,
apenas mais um
xexelento na fila do pão.
O ponto dela chegou.
Graças a Deus!
Antes de descer,
deixou um beijo no meu rosto
e sorriu:
— Nosso santo bateu.
Isso é energia boa.
Também sorri e só pensei:
-- Isso é só paciência, boba.
Olhei para o chão
Averiguei meu saco,
se já batia lá,
e o ônibus seguiu.
E eu descobri
que de manhã
o meu destino
me dá uma passagem
para o inferno,
só para lembrar
que uma desconhecida
pode me atormentar
por alguns quilômetros,
para começar bem o dia.
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