quinta-feira, 16 de julho de 2026

UMA POESIA NADA FOFA

Daniel é um blogueiro que me convida a esfriar o corpo no chuveiro. O único que me fez ir na 'fotinha' de avatar e maximizá-la, várias vezes, para ver melhor a paisagem. Como muitos escritores, ele gosta de poesia. Sua poesia mais recente (hoje) se chama O Santo Bateu. 

Quando eu a li, fiquei pensando sobre como a poesia costuma ser um retrato de algo que há em nós ou da forma como absorvemos as coisas. É nessas horas que vejo como minha alma é desprovida de certas qualidades, pois eu simplesmente não me vejo na situação descrita e sequer me convido a me colocar no lugar do autor, nem de brincadeira.

Estou envelhecendo e começando a entender certos preceitos psicológicos que antes eu repudiava. Entre eles, o entendimento de que não podemos nos colocar no lugar do outro, pois o lugar do outro é somente do outro. Agora compreendo a dimensão, pois a vida é uma cebola, ela é cheia de camadas.

Para terminar, coloco uma versão minha (nada agradável, mas real) da poesia dele. Recomendo que leia a dele primeiro

Às seis da manhã,
até os raios de sol
bocejavam atrás das árvores.
E eu, obrigado a ir tirar sangue,
lembro que  até os vampiros
o colhem à noite.

No mercedão que nunca terei,
aquele que é de todo mundo
e de ninguém ao mesmo tempo,
sentei ao lado de uma mulher
que resolveu conversar.

É doença pra lá
doença pra cá
doença que era dela
doença que era dos outros
doença que poderia ser minha
Joguei pedra na cruz, só podia.

Depois reclamou do SUS,
mas o Lula é um coitado
O pobrema é o crime
e o hômi-secsual
Mas Gzuis tá vendo tudo
Esse povo vai ver depois
E eu pensando: depois quando?
A dona tá viajando.

Fiquei me perguntando:
Quem sou eu
nessa imensidão,
apenas mais um
xexelento na fila do pão.

O ponto dela chegou.
Graças a Deus!

Antes de descer,
deixou um beijo no meu rosto
e sorriu:
— Nosso santo bateu.
Isso é energia boa.
Também sorri e só pensei:
-- Isso é só paciência, boba.

Olhei para o chão
Averiguei meu saco,
se já batia lá,
e o ônibus seguiu.

E eu descobri
que de manhã
o meu destino
me dá uma passagem
para o inferno,
só para lembrar
que uma desconhecida
pode me atormentar
por alguns quilômetros,
para começar bem o dia.

8 comentários:

  1. O caso apontado na poesia do Daniel e o caso acontecido na sua, são dois lados da mesma moeda.

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    1. acho porque quando acontece esses encontros assim, o que vem "de lá" pode ser qualquer coisa. Desde um papo sobre poesia concreta ou listagens intermináveis de males. Eu já tive encontros com os dois personagens. falo nesse sentido.

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  2. Public transit encounters can be incredibly draining, especially early in the morning on your way to a blood draw! Your poem captures that exact feeling of being trapped while a stranger unloads all their energy onto you. That ending line about patience instead of matching vibes is so hilariously real; it describes those awkward moments perfectly. Peeling back those layers of life definitely teaches us boundaries, plus when to just protect our own sanity. Thank you for sharing such a brutally honest, relatable piece of writing!

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    1. Thank you so much for such a kind and thoughtful comment! You captured the exact essence of what I wanted to convey. Sometimes, protecting our own sanity is all we have left in those daily encounters. Knowing that you identified with the text makes it all worth it!

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  3. Fabiano,
    O Dan é um poeta blogueiro
    muito querido. Gosto de ler
    por lá também.
    Ja sua poesia descreve muito
    do que gente de verdade passa
    no dia a dia, seja no transporte
    ou mesmo por onde passamos
    no nosso dia a dia por onde passamos.
    Uma coisa sua poesia mostra claramente:
    Em nossas vidas comuns, os dias
    passam e deixam historias!
    Amo isso.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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    1. Eu só pensei em como seria essa situação se fosse comigo. Eu não sou fofo e fofurice demais me faz mal. Porque ninguém é tão bonzinho. Minha vida é horrível, mas eu consigo torná-la interessante. Tanto que algumas pessoas se enganam comigo, ainda que eu não engane ninguém porque a gente deve ser o que a gente é. Não significa que não pode ser interessante. Mas se as pessoas criam ilusões a meu respeito, isso é uma questão delas e não minha.

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