domingo, 16 de agosto de 2026

CRÔNICA: EPIFANIA CAÓTICA

Situações indesejáveis têm o seu valor. Foi por uma delas que reestruturei meu emocional. 
Entrei numa noia de pensar que talvez eu pudesse gostar de mulher, se experimentasse. 
Já rolaram beijos e carinhos, isso há certo tempo, mas algo além, uma coisa mais íntima, nunca. 
Medo? Não.  
Medo de quê? De gostar?
É claro que não!
É incômodo. 
Acho mulher gostosa, atraente, mas me falta o querer pegar, querer tocar, apalpar, sentir a pele, o cheiro, o gosto.
Mas, e se eu me permitisse?
E se algum dia eu deixasse uma mulher tentar algo comigo?
Se eu desse carta branca a ela?
De repente, eu posso ser bissexual e não sei.
De repente, eu posso me dar bem com uma mulher.
Então, em um belo dia de domingo, após uma longa caminhada que deveria ter sido mais curta, eis que vou descansar no belo shopping de costume. 
Domingo em um shopping é sinônimo de aglomeração, muvuca, gente amontoada rindo, tossindo e peidando em torno de você. 
Gritos, crianças com liberdade demais, pets que deveriam ter ficado em casa. 
Paciência. Muita paciência. 
Acho que, andando pelas ruas e avenidas, eu estava mais em paz. 
Achei uma poltrona individual para me sentar. E a que estava à minha frente, a um metro e meio de distância, também ganhou alguém: um homem beirando os trinta, talvez, já com trinta e poucos anos. Pele branca como a minha (o tal do caucasiano) e pelos escuros.
Era barbudo o filho do cão. 
Olhei um pouco, sem ele notar. 
Aquela barba rente à pele, os fios não eram grandes, mas eram bem cheios e escuros. Meu coração acelerou. Nossa! 
O jeito era pegar meu celular, ficar focado no aparelho. 
Acabei dando uma olhada naquelas pernas tão comuns, abertas, trajando apenas uma bermuda sóbria, daquelas estilo pai. 
Vi aquela região onde as coxas saem pela bermuda. 
Senti calor. A respiração mudou. 
Por mais que eu colasse meus olhos na tela do celular, o pensamento insistia em reproduzir aquela imagem. 
E pensar que ele estava ali, a um metro e meio. Todo arreganhado.
Barbudo safado!
Eu queria ficar olhando, mas não acho isso certo. A esposa chegou sei lá de onde. Uma moça esguia com carrinho de criança. 
A voz dele era grossa, tinha um modo arrojado de falar.
Putz! Eu e esse cara sozinhos e pelados!
Eu ficava a imaginar.
O incômodo ficou insuportável. 
Tive que me levantar e sair a esmo. 
Andar pelos corredores de um shopping é se distrair indo para lugar nenhum.
Eu queria descansar mais um pouco, mas aquele cidadão estava tirando minha paz.
Então aquela minha noia se desfez. Eu percebi que jamais sentiria o mesmo por uma mulher.

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