Lua cheia de romantismo.
Léia e João ouviam rock em um bar.
Amigos vieram, bateram papo e se foram.
Os dois tinham algo importante a tratar.
João, homem lindo, gostoso.
Na cama, o fodão.
Um cavalheiro antes e depois do gozo.
Os olhos dela brilhavam.
O sorriso bobo de quem se encantava até com a espuma desaparecendo em meio à cerveja.
A música da Pitty soava mais bela:
-- Eu vou equalizar você...
Ela já sabia o que sairia dos lábios gostosos dele.
Estava preparada.
Ele relutava.
Era a tal da timidez.
Aproveitaram ao máximo aquele momento, então ela tomou a iniciativa.
Viu que ele não conseguiria.
João a olhava e a fala não saía.
Já tinham conversado muito sobre todos, sobre tudo, mas aquele assunto específico o mantinha calado.
-- Mas, hoje, estamos aqui por um motivo especial -- ela começou.
-- Eu sei. É que... eu não encontro as palavras certas.
-- Essa sua vergonha ainda vai te colocar em maus lençóis, meu bem. Só fala!
Ele riu de nervoso.
Parecia tão fácil.
Ela ainda sorria e procurava transmitir confiança no olhar.
Bebia a cerveja que já era pouca no copo.
João também bebeu. Goles e goles.
Então se encheu de coragem e falou:
-- A gente vinha falando em casamento, Léia.
-- "Você" falou em casamento. Por mim, morariamos junto. Toda vez que você vai, eu fico doida para você voltar.
-- O casamento é o certo. Tudo documentado. É bom até para você, caso eu morra.
-- Você não vai morrer. Você vai é me matar... de amor.
Eles riram.
Cúmplices do sentimento.
Ela tomou a iniciativa:
-- É sobre isso que você quer falar?
-- É, sim.
Aquele era o momento.
João sabia que não dava para enrolar mais.
De uma só vez, ele declarou:
-- Está tudo terminado entre nós.
Por um momento, ela riu. Achou que fosse brincadeira.
Só ela riu.
João estava mais do que sério, estava triste.
Seus olhos se avermelharam. Uma raiva começou a crescer para não dar vazão ao choro.
Gritou com Léia, afirmou que se casaria, sim, mas não com ela.
Tinha outra mulher. Sempre teve.
Alice era o oposto dela: filha de fazendeiros, não precisava trabalhar e se dedicava à religião cristã.
Usava roupas sóbrias, recatadas, abominava músicas profanas e tatuagens.
João gostava mesmo era de Léia, mas assumir de vez Alice era um bom negócio.
A conversa terminou com ele saindo correndo. Se ficasse ali, desabaria em pranto, e homem como ele não chora.
Léia foi ao casamento e fez questão de dar os parabéns aos noivos.
Esqueceu tudo o que tinha vivido com João.
Apenas desejou felicidades.
Todo mundo reparou na roupa triste.
O que chamou mais a atenção foram as tatuagens.
As pessoas murmuravam.
Algumas se mostravam curiosas. Outras, incomodadas.
Como essa gótica se atreve a estar na Igreja?
Léia foi embora mais leve. Deixou o peso que vinha carregando nas costas.
João, agora, viveria tudo o que uma mulher dissimulada era capaz de fazer.
Não era o que Léia desejava.
Mas ela sentia.
Queria estar enganada.
Que coisa é a vida.
* * *
Este conto é como perfume francês: pequeno e intenso.
Inspirado em um vídeo que vi com muito gosto no Blog do Neófito. O significado das tatuagens, o preconceito e a discriminação acerca delas.
Focando na condição da mulher, como se uma tatuada se resumisse a algo ruim.
A outra que se passa por pura, religiosa, toda meiga e carinhosa pode ser tão indesejável e até perigosa como atribuem à tatuada.
-- Pelo menos, a tatuada já mostra logo quem é. -- Algo assim nos dizeres sábios e filosóficos desse meu amigo.
Segue o vídeo:

Você poderia ter feito duas postagens, uma só a crônica/conto e a outra a explicação. E digo isso porque sua crônica/conto ficou simplesmente espetacular.
ResponderExcluirE desta vez não usei IA nem para corrigir texto. Legal, né?
ExcluirOi, Fabiano! O valor de uma mulher não está na tatuagem que ela possui ou não possui em sua pele. Quanto preconceito, não é mesmo? A humanidade ao que parece nunca evoluirá e se extinguirá em sua própria ignorância e ambição. A propósito o conto ficou excelente. Um abraço meu caro.
ResponderExcluirPois é, Luciano. Muito obrigado, meu caro!
Excluir