quarta-feira, 27 de maio de 2026

SAUDADES

Saudades.

Pode ser de coisas boas. Pode ser de coisas ruins. As saudades são sempre sobre algo que já se foi, não pertencem mais ao nosso tempo. Se elas ainda estivessem, seriam presentes. 

E nem todos os presentes são bons, não é mesmo? É...

Saudades de um tempo em que era fácil pensar no futuro. Eu era jovem, olhava para a vida como se ela fosse uma estrada grande a ser percorrida. E eu estava ali, tão longe de onde alcançava a minha vista. Dava até preguiça. Era confortável. Eu tinha muito tempo. 

Esse é o olhar que eu tenho hoje, lembrando um passado que nunca existiu.

É. Porque, quando eu era jovem e tinha todo esse percurso pela frente, eu já vivia questões internas conflituosas, seja por cobranças ou pela não aceitação de certas coisas. Então a realidade do meu passado nunca me ofereceu uma estrada longeva e uma atmosfera pacífica, esperando a minha vontade em transitar por ela. 

Se eu tivesse que vislumbrar a estrada real diante de mim naqueles tempos, diria que foi um lugar estranho, onde me senti pouco à vontade, angustiado, receoso. Me botavam em uma estrada indesejada, repleta de percevejos, borrachudos, aranhas peçonhentas, ratos e serpentes. Eu não queria ficar ali, mas era ali que me mandavam ficar.

A estrada que escolhi era ruim. Assim me diziam. Uma estrada limpa, clara, plana, com vista para um campinho e um lago com gansos e patos, galinha e marrecos, cães e gatos. 

Essa estrada era uma ilusão. Tudo fruto da minha imaginação. A estrada de verdade era aquela, a trevosa, a sinistra, a que me fazia ver gente brigando, se estapeando, desejos quebrados, enterrados. Mortos, não pelo impacto, mas pela dor. A dor da inanição. A dor da desolação que ninguém vê. E quando vê, não se importa.

Aquela era a estrada. A outra, não era nada.

Então, hoje, para mim, é fácil ter saudades do que já se foi. Porque seleciono as saudades de um tempo que nunca existiu, não daquele que passou.


Eu me inspirei subitamente após ler o post do Luciano Otaciano 

Muito obrigado, Luciano, pela inspiração. As palavras vieram da minha alma.

12 comentários:

  1. Oi, Fabiano! Que bom que minha postagem tenha lhe tocado meu amigo. O texto que escrevestes também é tocante pra quem permite tocar. O seu texto ficou maravilhoso. Um abraço!

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  2. Muito bem escrito e cheio de emoção e sentimentos...A saudade existe sempre, de um ou outro modo! Ótimo dia! abraços, chica

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  3. Grande texto!
    Creio ser um sentimento geral: o caminho que queríamos seguir nem sempre foi o caminho que conseguimos seguir. Faz parte da vida.

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  4. Meu irmão, ficou parecendo que você fez o Azarão aí com a IA.

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  5. Fabiano,
    Muito inspirador sua publicação.
    E para não ter influência no que
    sinto, só vou ler o Lu depois
    daqui. Talvez eu não tenha a
    mesma visão que seu texto aponta, porque
    fui criada na linha das ninhadas. Sabe
    o que é? É quando uma mulher aceita
    obedecer, servir e procriar. Minha Mãe,
    grande mulher, trabalhadora, aseada,
    fiel e serviçal, e assim ela teve o filhos,
    sendo 7 que vingaram e 3 abortados.
    Esses 3 já era quando ela estava acordando
    de que ela era uma pessoa com direitos.
    Mas até aí, nós já éramos 7 seres criados
    como ninhada, sendo que um sucumbiu
    a meningite antes de 1 ano e os
    outros 6, tínhamos 2 anos de diferença
    entre um e outro e o que já nos era
    lucro era sobreviver. Eu como a mais velha
    dos 6, nunca fui perguntada: O que vc
    vai ser? Vai estudar o que? Então Fabiano
    pra mim, que mudava quase 2 vezes a cada
    ano foi facil não fazer amizade e nem guardar
    saudade de lugares. Eu e meus irmãos, íamos
    onde éramos levados. Apanhávamos ao tentar
    defender a nossa mãe que apanhou muito
    e sempre e sem motivo legítimo. Então, como
    seu texto indica ou pontua, eu não pensava no passado,
    mas para o futuro, que eu sempre almejei: ser feliz (que não era
    casar e ter filhos), conhecer o amor e ter alguém que me amasse.
    E consegui os 3 por meu proprio esforço e sem
    ajuda. Minha mãe, incrivelmente, assim que me casei
    no mes de novembro, em janeiro seguinte meu pai
    levantou a mão pra bater nela e ela reagiu e NUNCA
    MAIS; ele sequer tentou. Por muito tempo gastei
    minha mente pensando Pq ela nunca tinha reagido?
    Será que 4 filhos apanhando por tentar defende-la
    foi tão negativo assim? Pq apanhavamos a vera
    e ela também e muito. Quando amadureci, parei
    de pensar a respeito. Mas Eu nunca permiti ninguém
    se quer tentar me defender e muito menos tentar
    levantar a mão pra mim.
    Descurpa o tamanho do comentário, viu? Mas
    nossos textos são para elaboração mesmo.
    Adorei ler sua publicação , logo em seguida a ter
    lido o Edu e o Jotabê, e em seguida daqui vou ler
    o Lu.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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  6. Não precisa pedir desculpas. Só acho que seu comentário é um depoimento muito importante e deveria ser publicado também no seu blog, pois você tem um público muito maior que deveria ler e saber que antigamente houve muito sofrimento porque homens eram crueis. As pessoas cresceram nos anos 2000 pra cá e acham que os tempos sempre foram assim. Anos 60, 70, 80, a violência contra a mulher sempre foi muito maior. Hoje, por causa da índole duvidosa de algumas e de outros tempos em que vivemos, ninguém consegue dimensionar isso. Eu era novo demais quando presenciei tias apanhando na frente da gente, na maior humilhação, sem motivo. Tios alcoolizados, de saco cheio, batiam e humilhavam sem dó. E se você entrasse no meio, batiam em você também.

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