segunda-feira, 20 de julho de 2026

FICOU NA LEMBRANÇA


Um dia, vi um homem que me chamou a atenção por ter uma barba cheia, escura, da cor dos seus cabelos um tanto bagunçados, precisando de corte. Os braços eram delineados e o corpo magro sugeria certa força por baixo daquela roupa suja após o dia todo de trabalho.

Esse homem chegava de bicicleta, abrindo o portão da casa ao lado. Antes de entrar totalmente, olhou na minha direção. Uma expressão de poucos amigos. Parecia zangado. O olhar era intenso. Nunca esqueci. Eu, um menino de poucos anos, sentado na calçada de casa, segurando um toco de gesso ao lado de uma boneca de pano, nada fiz.

Cerca de dez anos depois, eu ainda me lembrava daquele dia, do momento em que ele chegou, abriu o pequeno portão de sua casa e me olhou um segundo antes de entrar. Só que agora eu poderia ir até ele e puxar assunto. Talvez ficássemos amigos, embora eu quisesse mais. Eu queria era saber se, na sua intimidade, havia um certo órgão masculino. Conferiria seu formato, sua textura, seu cheiro. Se pudesse, gostaria de saboreá-lo. Que gosto teria um barbudo suado do trabalho como ele? Como era o gosto dele?

Sabia que esse encontro jamais aconteceria. Agora que eu tinha idade, eu queria. Por isso, o busquei em tantos outros homens. Nunca o encontrei.

Hoje, sinto o peso da idade. Não o da velhice, que ainda me trará outra perspectiva da vida. É o da maturidade, da vivência, de ter me tornado um catálogo de cores personalizadas de acordo com cada experiência.

Não me lembro muito do que se passou ao longo da minha existência. Das relações amorosas, eu carrego o que me é conveniente.

Quase cinquenta anos depois, com meus cabelos brancos, fingindo que não noto os vincos chegando aos poucos no meu pescoço, eu não consigo esquecer. A memória é cristalina: aquele homem barbudo chegando de bicicleta, entrando após um dia de trabalho e me olhando por um segundo. Cara de zangado. O que ele faria a mim, se pudesse, naquele momento? Não tenho coragem de confessar o que tenho imaginado. Só sei que teria gostado.

6 comentários:

  1. Fabiano,
    Esses personagens fazem parte
    da vida da gente e ainda me lembro
    de um dos meus, mas foi assustador...
    Por outro lado, nós certamente também
    somos personagens da vida de outros...
    Será?
    Adorei ler mais esse bem escrito texto.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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    1. Os assustadores para mim, no momento, deixo distantes.

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  2. Acho que tomo mundo tem uma cena dessa (não necessariamente sexual) guardada na memória. Eu tenho algumas. Como o sorriso da menina mais linda da minha sala da quinta série com longos cabelos negros. Essa imagem nunca me deixou. Não era nada sexual. Era uma contemplação, adoração, talvez.

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    1. Eu, quando criança, nem sabia o que era sexo. O sujeito ficou na minha mente, mas quando criança era só uma atração sem sentido. Depois de grande, como eu não esqueço, é que fui imaginar o que poderia rolar. Mas olha o perigo se ele fosse um daqueles, bem, você sabe, eu iria deixar ele fazer o que quisesse.

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  3. Muito interessante esta crônica, meus parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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QUADRINHOS: COMO A VIDA DEVE SER

Criação, roteiro e direção: Fabiano Caldeira Arte produzida por inteligência artificial