segunda-feira, 1 de junho de 2026

A BASE DO CAPITALISMO É A EXPLORAÇÃO DO POBRE


Lendo este livro, quero deixar documentado algumas coisas.

Achei que veria um texto bastante direto sobre socialismo, em ressonância com nosso sistema de governo atual ou, pelo menos, algo parecido.

Para minha surpresa, o que comecei a ler envolve questões existenciais do homem como espécie, procurando entender o princípio de nosso raciocínio. Estou  falando de uma vontade focada em descobrir de onde se originaram as primeiras ideias, os primeiros pensamentos do ser humano. 

Achei curioso e chato esse quê existencial e filosófico. 

O texto não tem uma pegada envolvente. É bom falar isso, porque vejo que me acostumei mal com narrações que fisgam a gente. Dar de cara com um texto sóbrio, duro e de estrutura datada (embora o português brasileiro seja o nosso atual) me fez questionar se estava obtendo o entendimento correto. E até agora não sei se o que entendi é isso mesmo, mas OK, vamos em frente. 

A narração fala da decadência do regime feudal na Europa, focando mais na Alemanha, Inglaterra e França, mas não só nesses países. E esse poder, digamos, enfraquecido acabou criando e fortalecendo uma nova classe, a dos burgueses, pois a divisão anterior era assim: 

- senhores proprietários de terras, com seus títulos de nobreza
- o pobre que não fazia outra coisa não ser trabalhar e vivia muito mal

Vale lembrar uma coisa, com o avanço do dinheiro, veio a ilusão de que trabalhar mais geraria mais aquisição de moedas. Mais moedas geraria mais aquisições de bens e isso identificaria a prosperidade de um lar. Antes, o sistema era basicamente mão-de-obra braçal em troca de coisas (comida, roupas, calçados, etc.).

Alguns favorecidos em dinheiro que também obtinham as graças da aristocracia (que tinha arrepios cada vez que sonhava em ter seu patamar de vida caindo), conseguiram se tornar indústrias de alguma coisa, organizando os pobres para trabalharem para eles na produção. Então criou-se o trabalho contratado como vemos hoje. É claro que naquela época as coisas eram diferentes, o livro não esclarece exatamente o passo a passo de como chegamos à CLT atual. Ele apenas me fez ter uma vaga noção desse início.

Esses industriais foram crescendo inicialmente com o apoio dos senhores poderosos que viram nessa nova classe uma massa aliada contra a Igreja cada vez mais poderosa e influente, adquirindo credibilidade em seus domínios, querendo ser ela o poder supremo de tudo. E quando falo em Igreja, eu me refiro à católica apostólica romana.

Eu me lembrei de um amigo que me falou uma coisa interessante: Não existe vácuo de poder. Se abre uma lacuna, ela logo é preenchida com outro tipo de poder. 

A Igreja começou a representar uma ameaça aos poderosos, vez que ela possuía cada vez maior influência entre a massa operária e vinha mantendo relações importantes com fins de aumentar sua riqueza. 

Os poderosos viram na classe desses industriais o freio que tanto precisavam para acabar com aquele tipo de poder religioso. Parecia o casamento perfeito, pois o povo seria controlado pelos industriais que, por sua vez, ajudariam a nobreza a se manter no poder. 

Só que o homem nunca fica satisfeito, ele sempre quer mais. A Igreja quis o poder dos aristocratas, a burguesia ajudou a detê-la, mas não por uma causa nobre senão a única ambição de também obter esse mesmo poder, só que, ao contrário dos religiosos, houve um consenso natural de que era mais negócio um alimentar o outro, assim ambos desfrutariam da mão de obra operária e sua produtividade.

Se entendi certo, essas indústrias são o que chamamos hoje de burguesia. Por isso a letra do Cazuza me veio à mente, a burguesia fede, pois a burguesia veio da classe operária, não da nobreza. O sonho da burguesia é essa nobreza, mas o livro me fez entender a possibilidade remota desse alpinismo social, por mais que alguns burgueses elevem seu patamar.  

Voltando um pouco no tempo, antes do capitalismo dar tanto poder aos industriais, focando de novo sobre a Igreja...

Do que entendi (e resumindo bem a questão), sempre houve um grande respeito à doutrina, tanto que os senhores do poder, na época, começaram a dar espaço demais para a Igreja. Deram tanta confiança que a Igreja se tornou o próprio feudalismo e esses nobres se viram no risco de perderem seus bens e seu poder. 

A Igreja, antes vista com bons olhos, começou a se parecer com um grande polvo cheio de tentáculos querendo pegar todo mundo. Quando ela se voltava focando nos pobres -- que desde aquela época eram serviçais para manter o sustento e o patamar de vida dos ricos -- tudo ia bem. A partir do momento em que ela começou a olhar com mais ênfase para o que os poderosos tinham de valioso, começou a incomodar.

A Igreja agia com soberania. Era preciso conter essa ação. Então eis que surge Martinho Lutero. 

Sempre achei que Lutero se rebelasse contra a doutrina por uma questão de fé, mas o livro me fez ver a coisa toda por um novo prisma. Precisamo lembrar que a Igreja não era tão fofinha como vemos hoje em dia. Havia algo de autoritário nela, até de perverso. O povo acreditava em fogo do inferno, garfinho do diabo, então eram outros tempos.

Agora me pergunto se Lutero foi um grande oportunista ou apenas um fantoche dos feudais? Talvez, um poucos de ambos.

Mais uma vez, a aristocracia deu confiança a quem não deveria. Dando asas aos burgueses, começou a se ver nas mãos deles, pois os burgueses sabiam como manejar o gado a contento dos aristocratas. Um povo feliz na sua miséria é um povo que continua a trabalhar, achando-se importante. 

Isso era bom para os burgueses, pois tinham sua produção e o lucro delas. E era ótimo para os aristocratas que maninham seu oneroso e respeitável padrão de vida. Então, a burguesia passou a ser necessária para a aristocracia. Até hoje, eu penso, é um misto de amor e ódio, pois um precisa do outro. A meta é, um dia, a burguesia conseguir garantir sua subsistência sem precisar da aristocracia, ou então se tornar a própria. Vejam Elon Musk, por exemplo. 

Há um ponto onde os operários pedem mais. Começam as reivindicações por direitos, as coisas mudam e tudo se complica. Os operários, antes, tão explorados e conformados, com o passar do tempo, passaram a questionar e exigir. Falou-se da França e da Alemanha. Não lembro as datas, não guardo exatamente tudo que leio, mas entendo mais do que consigo me expressar.

Eu não terminei a leitura. Confesso que li metade do livro e, do ponto em que parei, a narração mostra como sendo utópica essa coisa que muitos pensam de acabar com a miséria, o pobre deixar de ser pobre e todos viverem em um alto patamar de vida. A probabilidade de uma desigualdade social ocorrer a nível mundial, na verdade, tende a jogar todos os níveis de consumo para baixo, em vez de elevá-los. 

Parei de ler porque o livro me fez sentir como um cocô. O entendimento que tive é o de que a massa operária é utilizada apenas como aquele excremento que serve como adubo para o agro. E se você, pobre, não vem servindo nem para isso, sua existência está atrapalhando todo o sistema, inclusive o de pessoas relacionadas a você. 

Traduzindo nos dias de hoje, pessoas sustentadas pelo governo, que nada produzem de substancial ao sistema, não deveriam existir. 

Entenderam porque resolvi não continuar? Pode ser que meu entendimento esteja errado, às vezes acho que tenho o intelecto comprometido, pois não é possível que o mundo seja da forma como venho entendendo. Mas aí está o que entendi de metade do livro.

Talvez eu leia em doses homeopáticas algumas páginas a mais. Quem sabe? Mas, a questão é existencial. Não sei se quero esses espelhos me mostrando as coisas que não desejo ver. Talvez não valha a pena.

Meu olhar para as últimas eleições, depois de ler o que li, é que tanto faz quem ganhar agora, ou em 2030, pois eu deveria estar morto, sou um peso no sistema e político nenhum quer outra coisa a não ser manter o capitalismo cada vez mais selvagem, pois o mundo não se sustenta por outros meios se não explorando cada vez mais o pobre.

A versão dessa exploração na era digital está aí, para todo mundo ver. Redes sociais abarrotadas de conteúdos produzidos por todo mundo, mas só 1% ganha alguma coisa. E dentro desse 1%, alguns poucos é que realmente vivem da Internet. Os outros ganham merrecas e a grande massa que abastece todas as plataformas nunca ganhou sequer um centavo, mas as plataformas nutrem em todos a sensação de importância, relevância sobre o que fazem, elas nutrem o sonho do orgulho em realizar, adquirir por méritos alguma coisa. Como falei bem antes, segundo entendi no livro, a burguesia faz o pobre se sentir importante para gostar de ser explorado.

As coisas não estão diferentes, apenas possuem outra roupagem. A exploração nunca deixou de existir e nunca deixará. O dia em que isso acontecer, o mundo colapsará. 

12 comentários:

  1. Oi, Fabiano! Que baita resenha. De pleno acordo no dia em que a exploração deixar de existir o mundo colapsará, antes mesmo de as pessoas partirem no tempo "natural" pro além mundo. Infelizmente o mundo humano se acostumou existindo aqui na base exploratória do mais poderoso e influente explorando o pobre. É o capitalismo em sua essência pura e crua. A exploração nos nossos dias é exatamente a que você expôs tão bem na sua análise.
    Muito triste, não? Sobre a política nacional é um assunto que me enoja profundamente. Um abraço meu caro.

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    1. Pois é, Luciano. Os extremos sempre existirão. Lamentavelmente.

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  2. Fabiano!
    Bela resenha meu amigo.
    Pra quem acha que não entendeu, até que você discorreu muito bem.
    Mas no fim, a verdade é que em todas as ideologias e formas de governo, o pobre só se ferra.
    Aqui, 90% da riqueza está na mão de 2% da população.
    Isso é um estupro moral.
    Um abraço!

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    1. É, André. Eu não acredito mais em dias melhores. Onde eu moro as coisas estão muito complicadas e sei que existem lugares muito piores se tornando o novo normal. É normalização de bala perdida, normalização de invasão de casas com a família dentro. Normalização de assalto na porta de casa. Nao sei aonde isso vai chegar.

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  3. Tecnicamente, as bases do capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção, uma economia de mercado baseada na lei da oferta e da procura, obtenção de lucro, liberdade individual

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    1. Parece que é isso. Não há como ser diferente em se tratando de capitalismo.

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  4. Excelente resenha, Fabiano. Como professor de Geografia, achei muito interessante a maneira como você conectou a transição do feudalismo para o capitalismo com as relações de poder que ainda observamos na sociedade contemporânea. Independentemente de concordarmos ou não com todas as interpretações, a leitura crítica que você apresentou provoca reflexões importantes sobre desigualdade, trabalho, mobilidade social e organização econômica. Textos assim têm valor justamente porque nos fazem pensar além das respostas prontas. Parabéns pela análise.

    Abração !
    Daniel

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    1. Acho que seria bom, caso as pessoas queiram, ler o livro. A escrita, apesar de ser fácil, ela não transmite tão claramente essas coisas.
      Eu acabei colocando o que entendi. E parei porque achei que já bastava.
      Suspeito que as próximas páginas me transmitiriam alguma coisa a favor do comunismo, mas eu não sei.
      Um abraço.

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  5. Minha cabeça está parecendo a letra de um rock antigo: às vezes eu acho que comentei, às vezes eu acho que não, e fico nesse vai e vem. Gostei bastante da explicação/explanação sobre seu entendendimento do que leu. Mas comunismo não, nem utópico nem na prática. Vira esse radicalismo para lá! Abraços.

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    1. Oi, Jota. Normal. Acho que muitos de nós se sentem assim. Um grande abraço.

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  6. A exploração é o leitmotiv da civilização humana; ou melhor: da vida animal. Talvez até mesmo no reino vegetal.
    "Ah mas isso é muito triste; não deveria ser assim". Pois é...
    Abraços!

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