terça-feira, 22 de setembro de 2026

CRÔNICA: ACOMPANHANTE NO HOSPITAL

Estou no hospital, acompanhando alguém muito importante para mim que está operando. Mal dormi à noite, com medo de perder hora. Acordei super cedo e agora estou lutando para não ser derrubado pelo sono na sala de espera. E tudo parece ter se tornado pior do que realmente é. 

A espera está durando uma eternidade. O tempo não passa. Já tentei ler um livro, mas é abrir na página e o sono vem. Guardei, peguei o celular de novo, mas é difícil.

Tinha um pai e uma filha de uns 7, 8 anos atrás de mim, até agora, e menina não calava a boca nunca. Ela sempre botava um pensamento boca afora. Nem o pai dava bola. 

Aliás, acho que o pai nem tinha língua. Vai ver, foi por isso que vieram. A língua dele deve ter ficado presa dentro da xavasca da mulher. Só pode. Ela deve estar operando. A mulher da xavasca linguaruda.

Tem uma outra que fez questão de sentar bem ao meu lado. Ser gostoso tem desses incômodos. Saiu um pouco, voltou, está aqui. Se eu mexer os olhos, vejo o que tem celular no dela, a carinha, os cabelos. 

Fiz isso quando fui mijar. Olhei bem para ela e para o pai sem língua daquela menina que não parava de falar atrás de mim.

Pai e filha saíram porque foram chamados. No lugar deles, sentou outra mulher com seu celular. 

Volta e meia estão chamando os acompanhantes. 

Dos pacientes? Não, do job. É claro que é dos pacientes. Estou num hospital, caindo de sono porque não dormi direito.

Tudo me perturba. Não o hospital. O ambiente hospitalar é de boa, mas, quando você tem que lutar contra o sono, tudo incomoda.

Agora tem um gay sem noção falando com uma mulher cheia de assunto pelo celular. O volume do aparelho dele está no máximo e o som é muito ruim, parece uma caixa cheia de abelhas furiosas. 

Estão falando mal de todo mundo. E ele aconselha, fala um monte de coisas para ela. Parece um sábio, só que não. É fofoqueiro mesmo. Tem que gastar a língua na fofoca, já que na rosca de um homem ele não é a fim. 

Como eu sei? Homem que gosta de abocanhar rosca de outro homem não costuma gastar a língua fofocando com a amiga. Isso é coisa de gay passivo e solitário que não tem ninguém porque é cheio de preconceitos. 

Agora ele fala de Deus, Jesus. Ai, santa!

Impressionante como tem uns gays que ficam usando o catolicismo como um tipo de virtude maior, uma espécie de escudo de pureza, sei lá. 

E um enfermeiro super gracinha que pediu o resultado do dopler com ultrassonografia, mas, quando eu entreguei o papel, ele falou que não era aquele. Mas era. Estava escrito na folha, mas acho que ele não viu. 

Por fim, falou que não tinha problema, que o médico puxaria pelo sistema. Ué, mas se o médico pode fazer isso, por que ele atravessou o hospital inteiro só para me pedir o documento? Que doido. 

Bom, chega de escrever. Estou com sono e espero sair daqui logo. São onze horas e estou aqui desde às cinco e meia. 

Chegamos antes do Sol, antes de vários funcionários do hospital. Só quero ir logo para casa e poder dormir.

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